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Brasil

Parcerias Público-Privadas completam desmonte do Estado


Luis Fernando Novoa Garzon, membro da ATTAC-Brasil e da REBRIP (Rede Brasileira de Integração dos Povos), discute o projeto de Parcerias Público-Privadas do governo e questiona o papel da administração pública hoje

Por Alberto Amawakdiye


Alberto Amawakdiye: Dado o estado calamitoso da infra-estrutura brasileira e a comprovada falta de recursos das várias instâncias de governo para executar as obras necessárias, há alternativa à abertura do setor ao capital privado, de modo a reduzir as carências?

Luis Fernando Garzon: Em primeiro lugar, como pode ser chamada de “alternativa” uma variável que é apresentada como “única alternativa”? Em segundo, se é única a alternativa, como então pode ser considerada “a melhor”? Oras, a associação do setor público com o capital privado precisa ser uma opção e uma conveniência do primeiro, ou seja, da sociedade que se faz representar, caso contrário teremos uma temerária transferência de prerrogativas. Serviços essenciais e setores estratégicos sendo reconcebidos, organizados e planejados de acordo com a lógica do retorno financeiro e não segundo a lógica do desenvolvimento nacional e da ampliação da cidadania. Empresas privadas, por serem inerentemente fragmentárias e imediatistas, são incapazes de assumir atribuições públicas de tal magnitude.

O governo e seus aliados apresentam as PPPs como um desdobramento natural da “inviabilização” fiscal e financeira do Estado brasileiro, de forma a ocultar as políticas que diariamente constroem essa mesma “inviabilização”. São essas políticas, dilapidadoras da soberania, que devemos questionar antes de tudo. Não há como recuperar a capacidade de investimento do Estado sem revisar a forma de financiamento e rolagem da dívida pública. Não podemos partir da premissa que o Estado está falido para adotar as PPPs. Fazendo assim, estaríamos legitimando o desastroso receituário do FMI e assimilando o desmonte da nação como um fato consumado.

Amawakdiye: As PPPs não seriam uma maneira já mais ou menos clássica de atrair esses capitais privados? O Brasil não estaria apenas colocando em prática uma solução adotada com relativo sucesso em outros países, como a Inglaterra e o México?

Garzon: Não existem fórmulas fixas quando se trata da gestão de setores estruturadores da sociedade e da economia de um país. A administração pública não pode ser reduzida a uma técnica gerencial eficiente. O que não pode mesmo deixar de ser clássico é a democracia, com seus requisitos básicos, justiça social e transparência. Até mesmo as mais pioneiras parcerias público-privadas, adotadas há cerca de duas décadas na Inglaterra, vêm sendo substancialmente revistas em função desses requisitos. Por exemplo, lá os Tribunais de Contas do país avaliam prévia e detidamente a pertinência ou não de parcerias privadas, caso a caso. Depois da ocorrência de casos de abusos tarifários e de perda de qualidade dos serviços, foram estabelecidos, a partir de 2000, controles muito mais rígidos sobre as concessionárias privadas. Por conta disso, algumas empresas privadas de serviços de água e saneamento desistiram das concessões, a exemplo de Gales, em que ocorreu uma emblemática “desprivatização”.

No México, adotaram-se, a partir de 1994, associações público-privadas nos setores de saúde, armazenamento, energia, transportes e saneamento. No início, a aprovação dos usuários mexicanos chegava a 60%. A última mensuração feita em 2001 apontava para um índice de satisfação de apenas 20%. Além do encarecimento e, em alguns casos, da piora dos serviços, constatou-se uma crescente monopolização de sua oferta por conglomerados transnacionais. O governo mexicano resolveu aumentar o poder regulatório da Comissão Federal de Concorrência (CFC) para tentar contrabalançar o peso das redes monopolistas. Percebe-se nos dois casos, como em tantos outros, um escrutínio sucessivo das PPPs gerando reversões e remodelações em seus escopos originais. Não se copiam marcos regulatórios, eles são construídos nos entrechoques de interesses. Por isso, temos que estar sempre informados e mobilizados.

Amawakdiye: A intenção do governo de firmar as PPPs principalmente para a execução de obras consideradas "essenciais" não restringiria o risco de um "desplanejamento" geral (ou seja, de os empresários planejarem e executarem apenas as obras interessantes para eles, prejudicando a performance global da infra-estrutura brasileira e o próprio futuro econômico do país)?

Garzon: Vou exemplificar. Caso o capital privado transnacional protagonize os investimentos em infra-estrutura, haveria um reforço da função subsidiária que vem tendo o Brasil no mercado mundial como fornecedor de commodities e semimanufaturados. A maior parte dos recursos seria disponibilizada para incrementar os fluxos destes produtos, o que contribuiria para a cristalização das nossas vantagens comparativas estáticas em detrimento das dinâmicas. A China, por outro lado, não vê problema em receber investimentos privados, mas eles se inserem em um cronograma de desenvolvimento de longo prazo definido pelo Estado e, por isso, precisam obedecer a uma série de requisitos de desempenho. No Brasil, em um contexto de vulnerabilidade, recessão e estrangulamento financeiro, o projeto das PPPs foi formatado com demasiadas concessões aos investidores privados.

Amawakdiye: Como sr. vê a tendência de capilarização das PPPs para os estados (e depois talvez para os municípios)? Não haveria o risco de as PPPs se tornarem uma espécie de panacéia administrativa? Não há o risco também de as PPPs deflagrarem disputas inter-regionais por investimentos privados, nem sempre racionais do ponto de vista econômico-administrativo, como as verificadas há algum tempo atrás na chamada "guerra fiscal"?

Garzon: As desigualdades regionais e a descoordenação entre os entres da Federação sempre foram entraves à constituição de um verdadeiro projeto nacional. A luta pela democratização e pelo desenvolvimento do país passa necessariamente pela redefinição do pacto federativo em função dos interesses da maioria e das futuras gerações. Pois bem, as PPPs, como vêm sendo concebidas, significam o abandono dessa perspectiva democrático-popular e, ao mesmo tempo, a institucionalização da “guerra fiscal”. Explico: enquanto o setor público se encarrega de pagar os serviços da dívida, de forma rígida e no curto prazo, o setor privado assume a responsabilidade de execução orçamentária, de forma dinâmica e no longo prazo. A dinâmica fragmentadora do capital, ao invés de ser filtrada pelo Estado, seria exponenciada pelo mesmo, a partir de suas unidades federativas. Os estados e municípios, em geral administrados por elites patrimonialistas, passariam a disputar as alocações de investimentos não apenas com subsídios, mas com a oferta de “facilidades regulatórias”. Cada ente federativo vendo a si mesmo como um nicho de mercado e não como parte de uma nação a integrar. O olhar externo, fragmentário e mercantil como espelho autodefinidor. Impossível pensar o Brasil e planejar seu futuro dessa forma.

Amawakdiye: O sr. afirma que as PPPs são uma ferramenta para a completa desnacionalização do país, sendo apenas a outra face da "financeirização" da economia brasileira. A criação de mecanismos estatais ou parlamentares de controle não poderia eliminar este risco?

Garzon: Não se trata de criar salvaguardas específicas, mas sim de rejeitar o projeto como um todo em função dos interesses populares e nacionais. A pressa com que querem aprovar e aplicar as PPPs no Brasil não se relaciona com nenhum ato desenvolvimentista, visto que os mesmos que as propõem não se importam em manter e aprofundar o modelo recessionista que vem desmantelando o país. As PPPs procuram dar fôlego e sobrevida a esse modelo. É a fase subseqüente do desmonte do Estado e da transnacionalização da economia do país apresentada como um “novo ciclo de desenvolvimento”. É preciso perguntar quem serão os reais beneficiários deste “novo ciclo” e em que proporção. Que atores o conduzirão e com que representatividade? É a governabilidade democrática que está em jogo na discussão das PPPs.
 

Entrevista realizada pelo jornalista Alberto Amawakdiye, do SESC-SP. Publicada en Correio Cidadania, edición 409, 7-14 agosto 2004.

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